Resenha O Nome da Rosa, de Umberto Eco

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Primeiro livro de 2026 concluído. O Nome da Rosa é, sem dúvida, a obra de ficção mais famosa de Umberto Eco. Lançado em 1980, o livro traz uma história amplamente conhecida pelo público brasileiro. Quem cursou o ensino médio não escapou de uma sessão de cinema promovida por algum professor, em que a adaptação de 1986 era a atração.

O enredo traz a história do frei Guilherme, um religioso que chega a uma abadia no norte da Itália para representar os interesses e as ideias do Imperador de Roma em uma espécie de congresso para o qual o local foi escolhido como sede, reunindo os homens de dois inimigos: o referido monarca e o atual pontífice da Igreja, o papa João XXII. O grande embate se dá na contraposição entre a riqueza e a pobreza eclesiásticas, além da divisão entre Estado e religião.

Não bastasse esse importante imbróglio, outra trama assola o nosso protagonista. Ele é escalado pelo abade para investigar uma série de assassinatos misteriosos que têm acontecido no claustro. Para isso, contará com seu assistente, Adso de Melk, um noviço franciscano que o acompanha em sua viagem e exerce o papel de narrador em primeira pessoa desta história.

Ação vs. reflexão

Edição em capa dura de O Nome da Rosa

Uma das principais características deste livro é o vai e vem que o autor faz entre a ação da narrativa e as reflexões filosóficas. Por um lado, ele instiga o leitor com a trama policial: mortes misteriosas, uma investigação em ambiente fechado, as motivações que levam alguém a cometer tantos assassinatos e, o mais aflitivo, quem será o próximo? Por outro, o teórico da semiótica traz discussões profundas sobre a religião, sobre seus sacerdotes, sobre a vida de Jesus Cristo, sobre a produção e o compartilhamento do conhecimento e sobre os hábitos de membros da Igreja, mesmo daqueles que ocupam os mais altos cargos.

O controle do conhecimento é algo muito relevante dentro dessa história. Os personagens mostram como, por meio dele, é possível promover o controle das massas, induzir comportamentos e exercer o verdadeiro poder sobre a vida das pessoas, levando-as a atos impensáveis e mantendo os privilégios que determinadas castas se entendem merecedoras.

Tudo isso, apesar de parecer enfadonho, não o é. O livro consegue prender o leitor em todos os momentos, sejam filosóficos ou de ação. Além disso, o autor introduz pitadas de humor em pontos específicos. Não há como não abrir um sorriso no momento em que mestre e discípulo, Guilherme e Adso, se entristecem ao se depararem, em um livro, com a informação de que o animal unicórnio não é real (tudo isso em meio a discussões extremamente complexas).

Contudo, não se engane. O livro traz passagens extremamente pesadas. Não necessariamente por detalhes gráficos, mas por posicionamentos, colocações incômodas e termos que vão cutucar determinados tipos de leitores, principalmente aqueles que seguem religiões cristãs e, ainda mais, aqueles que seguem a religião católica.

Para as telas

A versão mais famosa é, sem dúvida, o filme de 1986, protagonizado por Sean Connery e Christian Slater. É a adaptação que todos nós assistimos na escola. Muito fiel à história original, o que mais chama atenção nesse produto é a crueza com que foi feito. Nada é construído para ser bonito. Pelo contrário: tudo é estranho, grotesco e, mesmo adulto, ainda acho um pouco assustador. O clima que o diretor conseguiu imprimir na tela deixa o espectador tenso a todo momento.

Trailer de O Nome da Rosa, filme de 1984

Em 2019, o enredo ganhou uma nova versão, agora no formato de minissérie. Com mais tecnologia, a nova adaptação perde um pouco daquele clima esquisito e amedrontador. Os cenários são mais limpos e belos e, diferentemente do cinema — que resume tudo em poucas horas —, há mais espaço para as discussões filosóficas do que no filme.

Trailer de O Nome da Rosa, minissérie de 2019

A leitura de O Nome da Rosa foi uma experiência prazerosa, mas também edificante. O medo ao iniciar essa empreitada era grande. Depois de ter detestado O Cemitério de Praga, livro mais recente do mesmo autor; de ter toda aquela lembrança do filme pesado e grotesco do ensino médio; e de ter me debatido muito com os textos teóricos de Eco (Apocalípticos e Integrados) durante a faculdade de jornalismo, posso dizer que superei o receio, mas ainda não estou pronto para O Pêndulo de Foucault.

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Felipe Paiuca

Jornalista formado desde 2013 – o tempo voa. O primeiro livro da minha vida foi “O Menino que Aprendeu a Ver”, de Ruth Rocha, em 1999. Enquanto a minha geração se aventurava com Harry Potter, a série que me conquistou para o mundo da leitura foi Deltora Quest, de Emily Rodda. Não tenho livro favorito, pois não consigo escolher e sempre tento variar os gêneros literários de uma leitura para a outra para abranger os mais variados temas possíveis.

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